O posicionamento da IURD sobre o aborto: Pecado ou opção?
No domingo, 31 de agosto de 2008, foi publicada na Folha Universal, jornal da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), uma mensagem de seu líder Bispo Edir Macedo, sobre a atual polêmica da legalização do aborto. Esta mensagem veio em complemento à reportagem sobre o debate aberto no Supremo Tribunal Federal a respeito da interrupção da gravidez em casos de anencefalia (fetos com má formação ou ausência cerebral). Nesta ocasião, o representante da IURD, bispo Carlos Macedo, declarou-se a favor do aborto de anencefálicos. A mensagem intitulada “A fé e o aborto”, traz uma análise do bispo Edir Macedo, abordando o assunto sob três diferentes pontos de vista. Indo na contra mão do que defende a esmagadora maioria das igrejas evangélicas brasileiras, a IURD, na pessoa de seu líder, é a favor da legalização do aborto (não só em casos de anencefálicos, como veremos). O que me causou maior espanto, entretanto, não foi o posicionamento favorável do bispo Edir Macedo, mas sim, a natureza de seus argumentos que quero comentar aqui.O bispo Edir Macedo inicia sua mensagem apresentando três pontos de vista passíveis de análise, para discorrer sobre o assunto: o ponto de vista sócio-econômico, o ponto de vista da fé e o ponto de vista emocional.
O ponto de vista sócio-econômico
Sobre o ponto de vista sócio-econômico, o bispo Edir Macedo deixa algumas questões para considerarmos, mas, infelizmente, não as responde, nem faz quaisquer comentários. São elas:1) Em que camada da sociedade o índice de natalidade é mais acentuado e por quê?
2) A quem interessa a multiplicação desordenada de seres humanos? Quem ganha e quem perde com isso?
Lembrando que estamos tratando do assunto “aborto”, que relevância há o
E quanto a segunda questão, eu fiquei curioso para saber qual seria a resposta do bispo Macedo e qual seria a implicação disso para o tema. Afinal Sr. Macedo, quem ganha e quem perde com a
Ainda do ponto de vista sócio-econômico, o bispo Edir Macedo argumenta:
3) Porque muitos se mostram contrários ao aborto enquanto o promovem às ocultas?
4) Por que a mesma consciência que condena o aborto despreza as crianças geradas e criadas à revelia?
Diante dessas acusações eu pergunto: será que a possível hipocrisia de alguns torna justa a prática do aborto? O fato de alguns (ou muitos, como apontou o bispo Edir Macedo) serem hipócritas torna a causa dos sinceros indigna de defesa? A incoerência de alguns anula a coerência dos outros? Que relevância há para a discussão o fato de alguns promoverem o aborto às ocultas, ou desprezarem as crianças carentes? Isso torna o aborto mais aceitável, ou menos pecaminoso? Certamente que não!
O ponto de vista da fé
Do ponto de vista da fé, o bispo Edir Macedo sugere as seguintes questões:1) Quais são as chances de uma criança abortada perder a Salvação da própria alma? A resposta para esta pergunta é: Nenhuma. O Senhor Jesus disse: "Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque deles é o reino dos Céus" (Mateus 19.14)
2) Quais são as chances de uma criança chegar à idade adulta e perder a Salvação da alma? Na parábola do Semeador (...) de cada cem pessoas que ouvem a Palavra de Deus, 25 são salvas
Pergunto: do ponto de vista da fé, estas são as perguntas mais pertinentes a se fazer com relação ao tema “aborto”?
Uma vez que o aborto é a interrupção da vida, não seria mais adequado perguntar: a quem pertence a vida do feto? Ou, quem tem o direito de interromper a vida? Quem tem o direito de decidir quando a vida começa e quando termina? Qual o grau de responsabilidade de quem interrompe esta vida?
Além do mais, o fato da criança ter a sua salvação garantida, não faz do aborto um ato de misericórdia. A salvação da criança não muda o fato de o aborto ser um assassinato, nem isenta os pais (e os que consentem) da responsabilidade.
Da mesma forma, o fato de haver grandes chances de a criança perder a sua salvação quando crescer, também não dá direito a ninguém de decidir quando a vida dessa criança deve findar.
Também argumentou o bispo Edir Macedo:
3) Se alguém gerar cem filhos e viver muitos anos, até avançada idade, e se a sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é mais feliz do que ele" (Eclesiastes 6.3). Por que isso está escrito na Bíblia?
A resposta vem nos seguintes termos:
Enquanto a criança estiver na idade da inocência, estará salva. Mas, ao entrar na idade da razão, perdendo, assim, a inocência, estará na dependência do perdão dos seus pecados e da aceitação de Jesus como seu Senhor e Salvador.
Vamos deixar claro um princípio aqui. Quando uma criança morre, no que o bispo chamou de “a idade da inocência”, a sua salvação está garantida, não porque ela é justa, mas porque Deus, pela sua Graça e Misericórdia, decidiu que ela fosse salva. Não é o primeiro pecado que faz do homem um pecador, mas é por ser um pecador que o homem comete o primeiro pecado. Nós herdamos de Adão esta natureza pecaminosa e todos carecemos da graça e misericórdia de Deus (tendo ou não executado o primeiro pecado). Logo, não é pela própria justiça que a criança é salva, mas pela Graça divina.
Mas o Sr. Macedo foi brilhante, não foi? Argumentação sagaz a deste bispo! Ele encontrou a solução para a salvação de toda a humanidade! Vamos abortar todos os bebês e matar todas as crianças na
Com relação ao versículo que o bispo citou, é bom salientar que o livro de Eclesiastes trata de uma observação que o autor fez de
Em Ec 6:3, por que o autor afirma que um aborto seria mais feliz do que um homem de longa vida que não se fartou do bem? Porque o aborto não teve alegrias nesta vida, mas também não padeceu necessidades e aflições, logo, se um homem viveu longos anos, mas em enfado de aflições, está em pior situação do que um aborto (no que se diz respeito a vida terrena). Por outro lado, qualquer pessoa que vive, mas tem alegria e contentamento está, com certeza, em melhor situação do que um aborto, que foi privado de sua vida terrena.
Portanto, é incoerência usar o texto de Ec 6:3 como argumento pró-aborto. Além disso, o texto trata da situação do feto abortado e não dos que cometem e consentem com o aborto.
Ainda do ponto de vista da fé, o bispo argumenta:
Como um dos mandamentos da lei divina, ‘não matarás’ trata do direito do ser humano à vida. Não creio que Deus estivesse focando os seres ainda em formação quando proferiu tais palavras. Contudo, isso não significa que a vida de um feto deva ser interrompida indiscriminadamente. Há, porém, situações em que não há outra alternativa (...) O mandamento ‘não matarás’ não se aplica ao aborto de um ser que ainda não está formado. A bíblia considera o feto como uma ‘substância informe’.
Bem, se o bispo Edir Macedo entende que o mandamento de
Infelizmente, isso não parece ser verdade para o bispo Edir Macedo. O que muito me surpreendeu foi o fato de o bispo defender que há situações onde o aborto é a única alternativa. A meu ver, a única situação que justificaria tal ato é no caso de alto risco de morte para a mãe. Mas esse pensamento passa longe do que advoga o bispo Edir Macedo. Fazendo mais uma menção inconseqüente da Palavra de Deus, o bispo afirma que a Bíblia trata o feto como uma substância informe, em outras palavras, o que ele quis dizer foi que a Bíblia trata o feto como algo e não como alguém. Mas o que a Bíblia, realmente, diz a respeito:
O Sl 139:16 diz:
ARA - Almeida Revista e Atualizada
ACRF - Almeida Revista e Corrigida Fiel
O texto em referência não trata o feto como uma substância. Este texto é uma declaração do salmista a cerca da onisciência de Deus, que nos conhece ainda antes que o nosso corpo seja formado. Antes que qualquer substância fosse gerada no ventre, o Senhor já nos conhecia! Este é o sentido do texto.
Analisando outros textos podemos notar que para Deus a vida intra-uterina é tão importante quanto a nossa vida.
– Jeremias foi chamado por Deus, para ser profeta, antes de ser gerado no ventre de sua mãe.
– Isaías, dentro do ventre de sua mãe, já era chamado por Deus pelo nome.
– João Batista foi cheio do Espírito Santo, ainda no ventre de sua mãe.
Mas dentre os textos bíblicos referentes a este assunto, há um que considero muito especial – Ex 21:22-23:
(ARCF)
“Se homens brigarem e ferirem uma mulher grávida, e ela der à luz prematuramente e, não havendo, porém, nenhum dano sério, o ofensor pagará a indenização que o marido daquela mulher exigir, conforme a determinação dos juízes. Mas, se houver danos graves, a pena será vida por vida”
NVI - Nova Versão Internacional
Este texto declara que em caso de aborto (interrupção do período normal da gestação), aquele que o causou (ainda que por acidente) deveria ser punido conforme a lei da retaliação:
Portanto, a Palavra de Deus trata o feto como um ser humano, como alguém, não, simplesmente, como uma substância informe.
Prosseguindo com a leitura desta infeliz matéria, pude comprovar o que eu só suspeitava quando comecei a lê-la
Desde quando, a falta de recursos dá à mãe direitos sobre a vida do filho? Que tipo de fé é essa que aceita o assassinato, mas não crê na provisão divina para o sustento do bebê? Que tipo de fé é essa professada pelo bispo Edir Macedo que nega a soberania de Deus na decisão da vida ou da morte? Se toda a vida pertence a Deus, que direito tem a mãe sobre a vida do filho? Ninguém tem o direito de privar-se da própria vida, o que dirá da vida do outro! Aquele que atenta contra a própria vida é passível de punição, como não seria o que atenta contra a vida do filho? Então, NÃO... a mulher não tem o direito de interromper o desenvolvimento do feto, sob nenhuma circunstância!
Mas o bispo parece ter encontrado a solução para a miséria e para o crescimento desordenado da humanidade!
Essa parece ser a proposta do bispo!
Para o bispo Edir Macedo, a pobreza justifica o assassinato! Soluções simples como o a entrega do bebê para a adoção, nem sequer foi cogitada pelo bispo Edir Macedo!
Como se já não fosse o bastante, ele ainda termina sua mensagem com argumentações que são até difíceis de comentar, de tão descabidas:
Embora eu, realmente, acredite que a liberação indiscriminada do aborto, seria sim, um estímulo à promiscuidade, eu não quero entrar nesta questão. Mas o que eu me pergunto diante de tal argumento é: o fato da prática do aborto não estimular o avanço da promiscuidade, faz do aborto algo aconselhável? Porque muitos são promíscuos, o feto pode ser assassinado? A corrupção do gênero humano isenta, os que praticam e consentem com o aborto, da responsabilidade da vida perdida? Claro que não! É certo que nenhum homicida (não arrependido) herdará o reino de Deus (Gl 5:19-21; Tg 2:11; 1jo 3:15; Ap 21:8; Ap 22:15).
O bispo continua:
Em seguida o bispo argumenta:
Para o bispo, a menor probabilidade de conversão, justifica o assassinato. Mais uma vez ele muda o foco da questão! O aborto é um atentado contra uma vida indefesa e inocente. O feto é a única vítima e, a condição espiritual da vítima, não interfere na gravidade do crime, nem isenta da culpa, os criminosos. E, uma vez que, toda vida é dada por Deus, esta declaração do bispo Edir Macedo faz Deus parecer inconseqüente, já que, segundo ele, a multiplicação de almas favorece o
E, finalizando a sua análise do ponto de vista da fé, o bispo Edir Macedo declarou:
E assim ele encerra sua desastrosa argumentação do ponto de vista da fé.
É difícil determinar onde o bispo Edir Macedo pretendia chegar com esta declaração, já que suas palavras entram em contradição com tudo aquilo que ele vinha argumentando até aqui! Com esta declaração ele acaba de concordar que o aborto
Na tentativa de defender o indefensável, o bispo Macedo se perde em suas próprias divagações.
Do ponto de vista emocional, o bispo Edir Macedo apresenta um único questionamento:
Do ponto de vista emocional, os argumentos contra o aborto são ainda mais fortes, principalmente por parte daqueles que conseguem criar os próprios filhos de forma adequada, isto é, sem deixar faltar-lhes pão, casa, educação e tudo o mais que é necessário ao desenvolvimento saudável de uma criança. É muito confortável, para os que têm condições, ser contra o aborto, sem se importarem com os que passam fome. Deus abençoe a todos.
Mais uma vez o bispo Edir Macedo deixa claro que, para ele, a pobreza justifica o aborto. E, neste caso, ele alega que, os que advogam contra o aborto, o fazem por falta de empatia com a miséria da sociedade. Mas eu pergunto: é uma atitude racional matar uma criança por não poder criá-la? Será que nossa sociedade (governantes e governados) está tão decadente e falida que não deixa nenhuma alternativa viável às mães que não tem nenhuma condição de criar seus filhos, a ponto de só restar-lhes o assassinato? Não sou tão pessimista assim!
E não seria por uma questão fortemente emocional que muitos lutam pela legalização do aborto? Com certeza! As mães que optam por abortar um filho fruto de estupro, não o fazem por não suportar lidar com a lembrança de que aquela criança foi o resultado de um ato de extrema violência? E é razoável que a criança pague pelo crime do pai? Os pais que optam pelo aborto em casos de anencefalia, não o fazem por não conseguirem lidar com a desesperança de vida na previsão médica? Não o fazem por não quererem lidar com a morte prematura da criança? Não o fazem, muitas vezes, para que não se apeguem a criança e venham a sofrer ainda mais depois? Não é também por uma questão emocional, que os que tem uma vida promíscua, optam pelo aborto, por não suportarem assumir as conseqüências de seus próprios pecados?
São muito mais fortes os apelos emocionais dos que defendem o aborto, dos que os que são contra ele. Os que defendem o direito ao aborto, ignoram os direitos que a criança tem à vida e desprezam a verdade de que Deus é o único digno de decidir sobre o tempo de vida de cada ser humano sobre a terra.
Notas:
Para ler o artigo na íntegra acesse:http://www.folhauniversal.com.br/integra.jsp?codcanal=9988&cod=136763&edicao=856
Nota de 10/09/2017
Infelizmente o texto na íntegra na Folha Universal online não se encontra mais disponível.
Mas encontramos sua reprodução em:
https://institutouniversaldafesocial.blogspot.com.br/2014/11/aborto.html
E também em:
http://estudo-conexaogospel.blogspot.com.br/2008/10/f-e-o-aborto.html
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